lacuna da empatia quente-frio

A tentação e a lacuna da empatia quente-frio

De acordo com Richard Thaler e Cass Sunstein, um princípio básico da economia é o de que “quanto mais opções melhor, porque, na pior das hipóteses, sempre é possível recusá-las”. (THALER; SUNSTEIN, 2019, p. 51) Tendo isso em vista, os autores utilizam como exemplo um jantar em que Thaler serviu castanhas como petisco.

Assim, seus convidados teriam três opções: comer algumas castanhas, comer todas elas ou não comer. Thaler percebeu que a pior alternativa seria comer todas as castanhas, já que isso estragaria o jantar. Assim, resolveu retirá-las da mesa, o que fez com que os convidados agradecessem.[1]

A partir daí, a discussão do jantar voltou-se à possibilidade de se ficar feliz com a retirada das opções. Isso, por sua vez ocorre a partir de um comportamento inconsistente, isto é, inicialmente as pessoas preferem A a B, porém, com o passar do tempo, passam a preferir B a A. (THALER; SUNSTEIN, 2019, p. 52)

Nesse sentido, para compreender a lógica é preciso considerar dois fatores: tentação e desatenção. Para definir a tentação, deve-se ter a consciência de que o estado de empolgação varia no tempo. Diante disso, os autores consideram dois extremos: quente e frio.

O exemplo utilizado remete ao personagem Ulisses, da Odisseia, o qual sabe que a tentação existe e toma providências para vencê-la. Desse modo, quando frio, Ulisses ordenou que a tripulação tapassem os ouvidos e o amarrassem ao mastro. Com isso, quando quente, o personagem seria impedido de pular ao mar seduzido pelo canto irresistível das sereias e os tripulantes estariam a salvo.

Entretanto, diferentemente de Ulisses, os indivíduos possuem “problemas de autocontrole por subestimar o poder da excitação”, o que Loewenstein chamou de “lacuna da empatia quente-frio”. (THALER; SUNSTEIN, 2019, p. 53)

Assim, os indivíduos não se dão conta de como o comportamento pode ser alterado sob a influência da excitação, refletindo certa “ingenuidade a respeito dos efeitos que o contexto pode exercer sobre a decisão”. (THALER; SUNSTEIN, 2019, p. 53)

Isso pode ser exemplificado a partir de ofertas de supermercado e lojas de roupa. Ou seja, Maria vai a uma loja em busca, apenas, de um produto específico. Todavia, sai do estabelecimento com muito mais do que precisava, tendo gasto mais do que podia e com produtos que nunca irá usar. Tudo isso porque a oferta era de 70% em todas as mercadorias.

Ademais, Thaler e Sunstein apontam que os problemas da falta de autocontrole remetem a dois “eus” semiautônomos: “o Planejador, que pensa a longo prazo, e o Impulsivo, que é míope”. O Planejador é a voz do Spock que habita em cada um, buscando o bem-estar (Sistema Reflexivo); enquanto que o Impulsivo é a do Homer Simpson, o qual é “exposto às tentações que surgem com a excitação” (Sistema Automático). (THALER; SUNSTEIN, 2019, p. 53)

Tendo isso em vista, importante notar que algumas políticas públicas adotadas por governos podem ser vistas como um meio de promover o autocontrole, de modo intervencionista (paternalismo não libertário), proibindo uma série de atividades, como o uso de drogas, ou sem intervenções (paternalismo libertário), como tributação elevada de cigarros, os quais não são proibidos. (THALER; SUNSTEIN, 2019, p. 60)

Percebe-se, assim, que alcançar o autocontrole e garantir a sua manutenção é uma tarefa difícil. O primeiro passo pode ser reconhecer e diferenciar as vozes do Spock e do Homer Simpson, a começar por um teste simples: certo dia você vai a um shopping e decide fazer um lanche.

Na praça de alimentação há dois estabelecimentos. Um deles vende alimentos saudáveis, com uma variedade de saladas e frutas, enquanto que no outro existem diversas opções de hambúrgueres. Thaler e Sunstein, em exemplo semelhante, provocam (THALER; SUNSTEIN, 2019, p. 61): “adivinhe qual estabelecimento tem a fila mais longa…”

E você, qual fila enfrentaria?


[1] Se Thaler tivesse deixado as castanhas na mesa, todas elas seriam ingeridas, estragando, assim, o jantar.

THALER, Richard H.; SUNSTEIN, Cass R. Nudge: como tomar melhores decisões sobre saúde, dinheiro e felicidade. Trad. Ângelo Lessa. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019.

Graduanda em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Integrante do Grupo de Estudos em Análise Econômica do Direito da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Coordenadora Adjunta do Grupo de Estudos Trabalhistas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Pesquisadora de Iniciação Científica 2019-2020. Fundadora do NÔMA – Norma e Arte.

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