Economia comportamental; racionalidade limitada

Economia Comportamental e os Truques para Escolher Melhor

A Economia Comportamental (EC) consiste no “estudo das influências cognitivas, sociais e emocionais observadas sobre o comportamento econômico das pessoas”.[1] A partir desses estudos, foi proposta a ideia de que os agentes econômicos valorizam de modo diferente ganhos e perdas da mesma magnitude. Ao contrário da lógica racional, “abrir mão de alguma coisa é mais doloroso do que o prazer que sentimos por recebê-la”.

Para melhor compreensão da EC, há necessidade de se reconhecer algumas premissas da Análise Econômica do Direto:  (1) o ser humano está disposto a aplicar todos os esforços para obter o melhor para si mesmo, agindo de forma racional com o fim de maximizar os benefícios; 2) o agente se utiliza de cálculos racionais a respeito de qual conduta lhe trará mais benefícios; 3) as regras legais atuam como incentivos ou desincentivos às condutas, influenciando no processo de tomada de decisão das pessoas.[2]

 “Atuar de forma racional” é uma ideia que admite pelo menos três concepções distintas: 1) capacidade de comparar e decidir entre duas ofertas concomitantes; 2) capacidade de escolher o bem com maior utilidade proporcional, após conhecer cada alternativa; 3) capacidade de calcular os custos de oportunidade, considerando o fato de o agente poder optar pela alternativa que trás mais benefícios do que custos.[3] Nesse sentido, a “escolha racional” está associada ao padrão de racionalidade (em relação às informações e/ou à forma como as analisa) que o agente possui.

“A racionalidade de uma decisão depende de estruturas encontradas no ambiente”[4], considerando “os limites humanos no tratamento da informação disponível para tomar decisões”[5]. Para que seja possível entender o comportamento de um organismo é preciso conhecer sua estrutura interna, bem como seu mecanismo de adaptação.[6]

Diferentemente do que propõe a ideia da escolha racional, as pessoas não compreendem o mundo em sua integralidade e não levam em consideração, necessariamente, as informações disponíveis. Os indivíduos tendem, na verdade, a focar naquilo que as preocupam e não enfrentam informações que podem ser potencialmente contraditórias, selecionando apenas o que é importante para reduzir a sobrecarga de informações.[7]

Tendo isso em vista, ao abordar a racionalidade limitada, Herbert Simon leva em consideração três fatores: 1) complexidade do ambiente de escolha; 2) acesso às informações; 3) limites psicológicos do decisor.[8] A partir disso, o autor conclui que o homem utiliza atalhos, chamados de heurísticas, para tomada de suas decisões.

Simon aponta que “a memória humana é organizada como uma enciclopédia muito bem indexada”, sendo que as dicas de percepção são os itens indexados, “os quais dão acesso à informação armazenada a respeito da cena percebida e das ações relevantes”.[9] Diante de uma situação que exija uma tomada de decisão urgente, a tendência do agente é se valer dessa “indexação” e utilizar as respostas datas em gatilhos semelhantes.

Entretanto, de acordo com Daniel Kahnemann e Amos Tversky, nem sempre as decisões são ótimas. A tendência do ser humano a correr riscos é influenciada pelo modo como as escolhas são apresentadas, dependendo, portanto, do contexto. Em outras palavras, tais heurísticas (atalhos), por vezes, podem levar a erros graves e sistemáticos.[10] Alguns exemplos podem ser citados:

  1. Você irá viajar de avião esta semana, porém, ainda não comprou suas passagens. Hoje, no período da tarde, o mundo recebe a notícia do maior acidente aéreo da história, ocorrido no Brasil. E aí, ainda irá comprar suas passagens aéreas? Sua resposta poderá ser definida pela heurística da disponibilidade, a partir da qual o acidente ocorrido passa a ter um peso maior do que merece no processo de tomada de decisões.
  2. Todos os dias quando você aguarda o ônibus para ir ao trabalho um carro da marca Audi R8, aquele com o qual você sonha adquirir, passa por você. De acordo com a heurística da representatividade, você “logicamente” pensa que o motorista é rico e tem muitos outros bens. No entanto, ele não possui uma vida estável, sequer é rico. Esta aí mais um erro de julgamento.
  3.  Entre número de zero a cem, imaginemos que você escolha 84. Agora eu pergunto, quantos países existem na Europa? De acordo com a heurística da ancoragem, o indivíduo focaliza sua atenção nas informações que recebeu recentemente.

Os exemplos listados acima ilustram como, a partir das heurísticas, os decisores podem se utilizar de regras simples que “não analisam os eventos em listas exaustivas para agregá-los, e nem mesmo avaliam suas probabilidades de ocorrência”.[11]

A compreensão da decisão não envolve apenas o seu resultado, mas a análise do processo decisório. Nada obstante, “o bom resultado deve levar em consideração o ambiente da escolha, restrições de tempo e esforço, os objetivos e o nível de aspiração do decisor”.[12] Portanto, antes de tomar uma decisão, pense bem, mas não muito.

Muito obrigada pela atenção! Comentem quantos países existem na Europa, mas sem pesquisar e considerando que o número escolhido foi o 84.


[1] SAMSON, Alain. Introdução à Economia Comportamental. In: ÁVILA, Flávia; BIANCHI, Ana Maria (Org.). Guia de Economia Comportamental e Experimental. Trad. Laura Teixeira Motta. 1. ed. São Paulo: EconomiaComportamental.org, pp. 26-60, 2015.

[2] RIBEIRO; Marcia Carla Pereira; GALESKI JR., Irineu. Teoria Geral dos Contratos: contratos empresariais e análise econômica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009, p. 77.

[3] RODRIGUES, Vasco. Análise Económica do Direito. Coimbra: Almedina, 2007, p. 13.

[4] SAMSON, Alain. Introdução à Economia Comportamental. In: ÁVILA, Flávia; BIANCHI, Ana Maria (Org.). Guia de Economia Comportamental e Experimental. Trad. Laura Teixeira Motta. 1. ed. São Paulo: EconomiaComportamental.org, pp. 26-60, 2015.

[5] GARCÍA-MARQUES, Leonel; FERREIRA, Mário A. B. Daniel Kahneman: A economia mental e o Nobel da Economia. Psicologia, v. XVII, n. 2, pp. 475- 483, 2003, p. 476.

[6] SBICCA, Adriana. Heurísticas no Estudo das Decisões Econômicas: Contribuições de Herbert Simon, Daniel Kahneman e Amos Tversky. Estudos Econômicos. São Paulo, v. 44, n. 3, pp. 579-603, jul./set. 2014, p. 582.

[7] SBICCA, Adriana. Heurísticas no Estudo das Decisões Econômicas: Contribuições de Herbert Simon, Daniel Kahneman e Amos Tversky. Estudos Econômicos. São Paulo, v. 44, n. 3, pp. 579-603, jul./set. 2014, p. 582.

[8] SBICCA, Adriana. Heurísticas no Estudo das Decisões Econômicas: Contribuições de Herbert Simon, Daniel Kahneman e Amos Tversky. Estudos Econômicos. São Paulo, v. 44, n. 3, pp. 579-603, jul./set. 2014, p. 584.

[9] SIMON, H. A. The Human Mind: The Symbolic Level. The American Philosophical Society, v. 137, n. 4, pp. 638-647, 1993, p. 642-643.

[10] TVERSKY, A; KAHNEMAN, D. Judgment under uncertainty: heuristics and biases. Science, New Series, v. 185, n. 4157, pp. 1124-1131, 1974, p. 1974, p. 1124.

[11] SBICCA, Adriana. Heurísticas no Estudo das Decisões Econômicas: Contribuições de Herbert Simon, Daniel Kahneman e Amos Tversky. Estudos Econômicos. São Paulo, v. 44, n. 3, pp. 579-603, jul./set. 2014, p. 589.

[12] SBICCA, Adriana. Heurísticas no Estudo das Decisões Econômicas: Contribuições de Herbert Simon, Daniel Kahneman e Amos Tversky. Estudos Econômicos. São Paulo, v. 44, n. 3, pp. 579-603, jul./set. 2014, p. 596.

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